segunda-feira, 16 de maio de 2011

Dia do Gari

   Papel de bala que a menininha deixou escorregar das mãos, bituca de cigarro que o empresário fingiu derrubar, nota fiscal amassada do mercado ali da esquina… Um palito de fósforo aqui, um chiclete ali e pronto: está formada a decoração do cenário urbano ao fim de um dia comum. Ou ao menos estaria, não fossem aqueles profissionais em trajes laranjas que insistem em evitar que o lixo se acumule nas ruas. Os garis.
   Hoje, 16 de maio, é o Dia do Gari, instituído por uma lei em 31 de outubro de 1962. A categoria dos profissionais de limpeza é a que mais emprega mão-de-obra de baixa escolaridade no Brasil: 1,5 milhão de empregos. No Paraná, mais de 50 mil pessoas trabalham no setor.
   Sempre a postos com suas vassouras em quase todas as esquinas, os garis são figuras já tão corriqueiras na paisagem da cidade que por muitas vezes acabam passando despercebidos aos olhos dos pedestres. O dia no calendário, entretanto, chega a ser esquecido pelos próprios profissionais.
   Responsável pela limpeza de parte da rua Brigadeiro Franco, uma das ruas mais movimentadas do centro da cidade, Uriel Miranda nunca soube, em quase nove anos de profissão, que em 16 de maio comemora-se o dia dos garis. “É mesmo? Estou sabendo só agora”, admira-se. “Nunca teve nenhuma festa na empresa, nada de especial”, diz, referindo-se à Cavo Serviços e Meio Ambiente, corporação privada responsável pela limpeza urbana da cidade.
  Ricardo Cortez, responsável pela contratação dos garis na empresa, explica que o processo seletivo para a profissão está longe de ser simples: “Os candidatos passam por um setor de recrutamento, avaliações psicológicas e exames em ambulatório médico, antes de ser efetivados”. Cortez destaca a importância da entrevista com o psicólogo. “Os garis interagem muito com pessoas, convivem com um fluxo grande delas, é indispensável que saibam como lidar com cada situação”, justifica.
  Quatro quilômetros diários
  Cesta básica, vale refeição, plano de saúde: é o que ganha, todos os meses, o gari Pedro de Oliveira e seus quase 600 colegas de profissão na Cavo. Foi na portaria dessa empresa, há quatro anos, que o gari Pedro conseguiu uma vaga para o serviço. Ex-carpinteiro e até então desempregado, conta ter esperado cerca de 90 dias até ser contratado. “Trabalhando como gari eu tenho todas essas coisas que não ia conseguir pagar sozinho”, confessa.
  Ninguém nega, entretanto, que a função seja árdua. De acordo com levantamento da assessoria de imprensa da Cavo, um gari caminha, diariamente, cerca de quatro quilômetros em sua “ronda” de limpeza.
Uriel Miranda, morador de Campo Magro, acorda antes do nascer do sol para conseguir chegar com sua vassoura e seu carrinho de coleta às sete horas da manhã no centro da cidade, por onde circula até as três da tarde. Bem humorado, brinca sobre a distância que percorre todos os dias: “É exercício, tenho que perder essa barriga aqui”. Segundo Uriel, o trabalho mais puxado fica por conta das segundas-feiras, já que não há limpeza urbana aos domingos. “Segunda é um pouco pior, o pessoal exagera no fim de semana, joga muita coisa no chão, coisa perigosa até, garrafa de vidro”, lamenta.
   É exatamente esse o principal motivo das greves organizadas pelos garis: a falta de segurança na coleta do lixo, presente tanto em materiais cortantes e prejudiciais como em avenidas com grande teor de criminalidade.
   “Quando reivindicamos por melhores condições de serviço, não estamos reclamando do salário. O problema é a segurança nas ruas. Tem lugares perigosos pra se ficar”, assegura Mauro Barbosa, gari responsável pelas redondezas da Praça Oswaldo Cruz onde houve, somente no ano passado, nove “arrastões”.
  “O que faz um bom amigo é ser amigo”
Não são raras as ocasiões em que garis são tratados de maneira rude e indelicada pelos pedestres. Diariamente, são expostos a comentários preconceituosos e vêem sua profissão virar sinônimo de marginalidade. “Já me aconteceu de uma mulher puxar o filho pequeno pra longe de mim”, conta um Mauro Barbosa triste. “Tem gente que acha que o nosso trabalho não é digno”, completa Pedro de Oliveira.
Uriel Miranda não se incomoda com as reações desagradáveis de alguns pedestres em relação a sua profissão. “Sempre tem as pessoas que não têm boa educação, né. Às vezes acontece de jogarem lixo na calçada bem na minha frente, mas é meu trabalho limpar. Eu trato todo mundo bem. O que faz um bom amigo é ser amigo”, declara.
  Comerciante de uma loja localizada na rua em que Uriel trabalha, Lauro Ohamoto elogia o capricho do amigo: “A frente da minha loja está sempre impecável no horário de turno dele. É bom tê-lo por perto, esse uniforme chamativo espanta ladrão”, brinca e promete uma lembrança: “Dia do Gari? Esse cara merece um presente!”
  A homenagem oficial
  A Câmara de Curitiba realizará hoje à noite, às 20h, sessão solene em homenagem aos profissionais da categoria. Manassés Oliveira (PPS), que assumiu, neste mês, a Secretaria Municipal do Trabalho e Emprego, falou sobre a importância da data. “Quase na totalidade terceirizada, a categoria é uma das menos valorizadas e mais expostas a riscos todos os dias. Exerce suas atividades em locais perigosos, muitas vezes recolhendo lixos tóxicos, transportando resíduos cortantes e exposta ao frio, chuva ou excesso de calor. Que esta data seja, também, oportunidade para reflexão sobre as condições dos trabalhadores da área de asseio”, diz Manassés.

Um comentário:

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